Soja diminui a libido e a fertilidade? O que dizem os estudos científicos?

A soja e os seus derivados são alimentos bastante populares em todo o mundo, especialmente entre vegetarianos e veganos. A discussão sobre se o consumo de soja pode diminuir os níveis de testosterona e a fertilidade tem mais de 50 anos e é uma das mais controversas no mundo da nutrição.

No artigo “Soja diminui os níveis de testosterona? O que dizem os estudos científicos?” olhámos para os estudos científicos que procuraram responder a esta questão. A verdade é que esta é uma questão que está longe de ser consensual.

No presente artigo, vamos procurar responder à questão sobre se o consumo de soja diminui a libido e a fertilidade.

Podem também ao vídeo que gravei a falar deste assunto:

As isoflavonas da soja têm ação estrogénica

As isoflavonas presentes nos produtos à base de soja são os grandes culpados desta discussão. As isoflavonas são compostos orgânicos presentes naturalmente em muitos alimentos vegetais, como os produtos hortícolas. A soja é dos alimentos com um teor mais rico em isoflavonas.

As isoflavonas apresentam uma estrutura química semelhante aos estrogénios, a hormona sexual feminina. Esta semelhança estrutural permite que elas se possam ligar aos recetores de estrogénio presentes em diversos tecidos do nosso corpo e mimetizar o efeito do estrogénio. Por esta razão, as isoflavonas são consideradas fitoestrogénios (fito = planta, portanto, estrogénios das plantas).

O estrogénio é responsável pelo desenvolvimento do sistema reprodutor e das características sexuais femininas, como o crescimento do peito. Esta alteração do balanço entre os níveis de estrogénio e a da testosterona, a hormona sexual masculina, pode afetar características como a manutenção da massa muscular ou a capacidade reprodutora.

O consumo de soja diminui a fertilidade?

Alguns trabalhos iniciais observaram que as isoflavonas contidas na soja eram responsáveis pelos problemas de fertilidade observados em ovelhas e chitas (1), (2), (3). Nestes casos, os animais encontravam-se a consumir uma quantidade bastante elevada de isoflavonas (360 mg por dia). Para se ter uma ideia melhor, a ingestão diária média de isoflavonas da população japonesa, uma das maiores consumidoras de soja, é de 30 a 50 mg por dia (4) e, que se saiba, os japoneses têm-se conseguido reproduzir com sucesso.

Para além disso, hoje sabe-se que o metabolismo das isoflavonas varia entre espécies animais e é muito diferente do metabolismo das isoflavonas em seres humanos (7). Certas espécies animais têm uma maior capacidade de produzir equol a partir da dadzeína, uma das isoflavonas presentes na soja. O equol tem um efeito estrogénico mais potente do que a dadzeína (8). No entanto, apenas cerca de 25% da população não-asiática possui as bactérias intestinais que convertem a dadzeína em equol (9).

Existem dois estudos de caso de 2 indivíduos que apresentaram problemas a nível da libido e da disfunção erétil (10), (11). Um deles tinha 60 anos enquanto que o outro tinha 19 anos.

O paciente de 60 anos reportou que estava a consumir quase 3 litros de leite de soja diariamente. Isto equivale a cerca de 300 mg de isoflavonas por dia, 6 a 10 vezes mais do que a ingestão média da população japonesa. Após cessar o consumo do leite de soja, a sua sensibilidade nos seios desapareceu e os seus níveis de estradiol – um tipo de estrogénio – voltaram lentamente ao normal.

O paciente de 19 anos era diabético tipo-1 e também reportou consumir regularmente grandes quantidades de produtos à base de soja. O paciente alterou significativamente a sua dieta e após 1 ano os seus níveis de testosterona total voltaram à normalidade e a sua função sexual também melhorou.

Um estudo publicado em 2008 (12) constatou que o consumo modesto de soja estava associado a uma menor concentração de espermatozóides, apesar da contagem de espermatozóides não ter diminuído. Esta menor concentração de espermatozóides foi mais acentuada em homens obesos ou com excesso de peso.

No entanto, a conclusão deste trabalho recebeu críticas uma vez que o principal motivo da diminuição da concentração de espermatozóides ocorreu porque houve um aumento no volume ejaculado nos homens que consomem maiores quantidades de soja.

Em 2015, num estudo que envolveu 184 homens que estavam a receber tratamento de fertilização in vitro (13), o mesmo grupo de investigadores não encontrou nenhuma relação entre a ingestão de alimentos à base de soja e indicadores como a taxa de fertilização e a qualidade dos embriões.

Um estudo clínico publicado em 2001 também havia concluído que o consumo de um suplemento rico em isoflavonas não afetou indicadores da qualidade dos espermatozóides (14). Neste estudo, realizado com homens saudáveis, os participantes tomaram um suplemento que continha 40 mg de isoflavonas diariamente durante 2 meses.

Amostras de sangue foram recolhidas mensalmente entre os 2 meses que antecederam o estudo e os 4 que o procederam. Os investigadores observaram que não houve nenhum impacto negativo na qualidade dos espermatozóides proveniente do consumo das isoflavonas.

Num ensaio clínico publicado em 2010 (15), os participantes foram divididos em três grupos que consumiram um de três batidos: proteína isolada de leite, proteína de soja isolada com um baixo teor de isoflavonas (1,6 mg) ou proteína de soja isolada com um alto teor de isoflavonas (61 mg).

Os investigadores observaram que a ingestão dos batidos de soja não afetou negativamente os diversos indicadores da qualidade dos espermatozóides, incluindo a concentração, o volume, a quantidade e a mobilidade dos mesmos.

Conclusão

Olhando para a literatura científica publicada a respeito do consumo de soja e o potencial impacto nos níveis de fertilidade, podemos ver que eles demonstram que é improvável que os produtos à base de soja, se consumidos em quantidades razoáveis, diminuam a fertilidade.

Os ensaios clínicos realizados até à data não encontraram qualquer impacto negativo no consumo de uma quantidade de isoflavonas até 60 mg por dia na qualidade dos espermatozóides.

Se ainda assim estiver preocupado que o consumo de soja possa estar a afetar a sua capacidade reprodutora, a única forma de o verificar é fazer exames.

Autor: Marcos Sabino

Marcos Sabino criou o Tá Fitness em 2012. Licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho, onde também tirou o mestrado. Trabalhou 4 anos na Prozis, em Portugal, e em 2014 mudou-se para Inglaterra onde trabalha desde então na Myprotein. Possui um canal no Youtube onde dá dicas de nutrição e suplementação e um perfil no Instagram (@marcossabinofitness).

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