Método Hipopressivo – a revolução dos abdominais (Parte 1)

Dado o elevado número de seguidores deste projecto, faz-se necessário apresentar conteúdos que sejam uma mais-valia, pela sua comprovação científica e enorme evolução conceptual que muitas formas de treinar, prevenir e tratar apresentam em pleno ano de 2012.

Não irei expor conceitos que já todos conhecem para ocupar espaço, e que se praticam de igual forma há muitos anos, ao ponto de hoje serem considerados obsoletos. Pretendo sim em função do conhecimento que possuo, oferecer informação muito actual sobre diversos temas. Tão actual, ao ponto de muitas vezes gerarem controvérsia.

Porém é o que pretendo gerar a inquietude necessária para que todos se sintam motivados a pesquisar um pouco mais e dentro dos possíveis sensibilizar os leitores para as tendências actuais na área do treino, prevenção e reabilitação.

A título de exemplo, não irei nunca escrever que para tratar uma “tendinite” no cotovelo, devem alongar, repousar e fazer gelo, porque estes conteúdos estão disponíveis em centenas de fontes que todos podem consultar e não são de todo os meios mais eficazes para ultrapassar a “tendinite no cotovelo”… Tenha para mim que evoluir não é uma opção, mas sim uma obrigação. Espero contribuir um pouco para esta evolução.

abdominais hipopressivos

Método Hipopressivo – a revolução dos abdominais

Em seguida explico o que acontece quando se realizam os tradicionais exercícios para os abdominais (crunches) e os seus efeitos nefastos para a saúde:

  • Com a realização convencional deste fortalecimento observa-se um aumento brutal da pressão intra-abdominal, ao ponto de todas as vísceras abdominais serem “empurradas” para baixo* – contra o pavimento pélvico (composto por vários músculos que se encontram na base da pélvis) que são responsáveis pelo suporte visceral, pela continência urinária e fecal e pelo desempenho sexual.

As disfunções do pavimento pélvico resultam de uma ou mais alterações patológicas que afectam esta região. Segundo Rao (2010) estas condições são extremamente comuns e afectam mais de 25 % da população. Causam grande morbilidade, promovem transtornos na qualidade de vida e resultam em distúrbios psicológicos e absentismo laboral.

* Observa-se que as vísceras são empurradas para baixo, pela visualização da não contenção de todos os músculos que compõem o pavimento pélvico. O bom estado destes músculos pélvicos é fundamental para manter a integridade e o bom funcionamento da vagina e da uretra e a posição dos órgãos dentro da pélvis.

Os músculos pélvicos controlam o fluxo de urina, a contracção da vagina e o bom encerramento do ânus. Tanto a uretra quanto o ânus tem um esfíncter (músculos especiais que funcionam como fechaduras) que garantem a retenção da urina e fezes.

Ora com a realização tradicional de fortalecimento abdominal, nota-se que a pressão gerada internamente empurra todos estes músculos, vagina e ânus, o que progressivamente gera fraqueza de toda esta região, originando sensação de peso e dor vaginal, incontinência urinária, etc, etc.

  • Com a realização de exercícios hipopressivos, cria-se tal como o nome indica uma diminuição da pressão intra-abdominal (hipopressão), o que de modo muito simplista cria um efeito de vácuo, o que aspira as vísceras para cima, não as empurrando contra o pavimento pélvico, ao mesmo tempo que se tonifica de modo cientificamente comprovado a parede abdominal.

As Técnicas Hipopressivas (TH), criadas pelo Prof. Doutor Marcel Caufriez, fisioterapeuta de nacionalidade belga, doutorado em Ciências da Motricidade e especializado em Reabilitação, englobam posturas e movimentos que visam a diminuição da pressão nas cavidades torácica, abdominal e pélvica.

Apaixonado pela reeducação uroginecológica, renomeou-as em 1980 como técnicas de “aspiração diafragmática”. A partir desse momento desenvolveram-se vários estudos no Laboratory for Experimental and Applied Human Ecofisiology, cujo objectivo era criar uma técnica de tonificação muscular benéfica para a faixa abdominal evitando os conhecidos efeitos negativos sobre o pavimento pélvico.

É neste contexto que surge o conceito da Ginástica Abdominal Hipopressiva (GAH) e mais recentemente vocacionado para o desporto o conceito de Reprocessing Soft Fitness (RSF).

  • São muitos os estudos que já demonstraram o efeito negativo dos exercícios abdominais clássicos (fásicos) sobre o tónus do assoalho pélvico das mulheres e o impacto que tinham nas patologias de prolapsos pelvianos. À posteriori, distintos estudos demonstraram a implicação terapêutica positiva da Ginástica Abdominal Hipopressiva em muitas patologias funcionais, em particular, aquelas relacionadas com o “Síndrome de Deficiência Postural (Martines da Cunha Lisboa 1979).

metodo hipopressivo para os abdominais

Efectividade dos exercícios hipopressivos, segundo investigações científicas:

  • Redução do perímetro da cintura em cerca de 8%
  • Melhora da postura. Num mês diminui-se lordoses lombares (p=99,9%), cervicais (p=99,8%) e hipercifoses dorsais (p=99,5%).
  • Aumento do tónus do pavimento pélvico e da faixa abdominal em 58%.
  • Incremento da força do pavimento pélvico em cerca de 20%.
  • Melhora a resistência em 65%.
  • Aumenta a força explosiva e a capacidade anaeróbia ao elevar o metabolismo em 15%.
  • Melhora as prestações sexuais em mulheres e homens pelo incremento da vascularização no pavimento pélvico.
  • Previne a incontinência urinária.
  • Induz uma correcta distribuição das pressões abdominais.
  • Evita prolapsos.

Benefícios terapêuticos dos exercícios hipopressivos:

  • Tonificação do pavimento pélvico (sobretudo em mulheres);
  • Tonificação da faixa abdominal;
  • Melhoria na distribuição da pressão abdominal durante o esforço;
  • Prevenção de lombalgias funcionais;
  • Prevenção de hérnias discais lombares;
  • Prevenção de hérnias vaginais;
  • Prevenção de hérnias abdominais, crurais e inguinais;
  • Melhoria na vascularização dos membros inferiores e pélvis;
  • Melhor mobilização metabólica;
  • Melhoria da sensibilidade sexual (sobretudo em mulheres);

Na Parte II deste mesmo tema será abordado o modo como se pode realizar uma avaliação simples do estado funcional da faixa abdominal. Realizar 300 abdominais por dia pelos meios clássicos é perigoso e inútil pensando em prevenção e saúde.

Lanço um pequeno exercício… vamos todos pensar se não vimos já corpos com um abdómen perfeitamente delineado, com abdominais perfeitamente definidos, mas esse mesmo abdómen que é definido é também ao mesmo tempo volumoso… os que não viram, peço que estejam um pouco mais atentos e os que já viram pensem porquê… com tantos abdominais realizados diariamente como será possível continuar com uma barriga volumosa, apesar de se notarem os contornos musculares dos abdominais?

Não percam a Parte II deste artigo.

Autor: Marcos Sabino

Marcos Sabino criou o Tá Fitness em 2012. Licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho, onde também tirou o mestrado. Trabalhou 4 anos na Prozis, em Portugal, e em 2014 mudou-se para Inglaterra onde trabalha desde então na Myprotein. Possui um canal no Youtube onde dá dicas de nutrição e suplementação e um perfil no Instagram (@marcossabinofitness).

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