Glutamina faz mal? Tem efeitos colaterais?

A glutamina é um aminoácido com importantes funções fisiológicas. Entre outras coisas, ela ajuda na eliminação da amónia, fornece energia para as células do sistema imunitário e contribui para a síntese de glicogénio muscular.

Em alturas em que o sistema imunitário se encontra debilitado (como no caso de gripes e constipações), é bastante comum vermos atletas a consumirem grandes doses diárias de glutamina (mais de 30gr) durante este período. Neste artigo iremos analisar se a suplementação com glutamina, a curto ou longo prazo, é segura ou se pode provocar efeitos colaterais.

Conforme referido anteriormente, a glutamina ajuda a remover a amónia gerada durante a prática de exercício físico [*1], [*2]. Isto é fundamental para a recuperação do atleta e para o bom funcionamento do organismo. No entanto, exagerar no consumo regular de glutamina pode ser contraproducente a este nível.

Um estudo de 2006 explica que, se presente em elevadas quantidades, a glutamina pode tornar-se num agente prejudicial. Isto porque grande parte da glutamina sintetizada é posteriormente metabolizada nas mitocôndrias, gerando amónia. Portanto, se consumida em grandes quantidades de forma regular, o efeito benéfico da glutamina na remoção da amónia será suplantado pelo seu efeito prejudicial de acumulação dessa substância tóxica [*3].

Consumo de glutamina a curto-prazo

Num estudo publicado em 2000, não foi reportada nenhuma reação adversa à suplementação com 20 a 30 gramas de glutamina após 2 horas de atividade física moderada [*4].

Um estudo mais antigo avaliou a segurança do consumo de doses grandes de glutamina durante um período de 5 dias. Os participantes no estudo consumiram doses de glutamina entre 0,285 a 0,570 gr / kg todos os dias. Numa pessoa de 80kg, isto significaria consumir entre 22 a 45 gr de glutamina.

Não foi registada qualquer evidência de toxicidade nos indivíduos que consumiram as doses mais elevadas. Além disso, a suplementação com glutamina, aliada a uma dieta hipercalórica e hiperproteica, aumentou a capacidade do corpo em reter nitrogénio, um fator preponderante para estimular o crescimento muscular [*5].

Num outro estudo mais recente, não foi relatado nenhum dano em atletas que consumiram 28 gr de glutamina todos os dias durante um período de 14 dias. Doses de até 0,65 gr / kg de peso corporal parecem ser bem toleradas quer por pacientes clínicos quer por pessoas saudáveis e não parecem resultar em níveis anormais de amónia no plasma sanguíneo [*6].

glutamina efeitos colaterais

Consumo de glutamina a longo-prazo

A história é outra quando falamos no consumo de doses elevadas de glutamina de forma regular. Um relatório recente [*7] identifica alguns potenciais efeitos colaterais que podem advir da suplementação crónica com doses elevadas de glutamina (mais de 40 gr por dia). Destacamos os principais:

-> Alterações no transporte de aminoácidos. A glutamina partilha transportadores com outros aminoácidos. Sendo assim, uma maior ingestão de glutamina pode prejudicar a distribuição dos aminoácidos entre os tecidos e a sua absorção no intestino e nos rins. Pode verificar-se uma diminuição de importantes aminoácidos na corrente sanguínea, como valina, leucina e isoleucina.

– > Diminuição da síntese endógena de glutamina. Devido à resposta adaptativa do organismo a um maior consumo exógeno de glutamina, ele deixa de produzir (ou reduz bastante) a sua própria glutamina. Quais as consequências disto? Se parares de consumir glutamina definitivamente, depois de um longo período a consumir glutamina regularmente, o corpo pode ficar privado deste aminoácido, prejudicando importantes funções fisiológicas, como a remoção da amónia ou a manutenção do sistema imunitário.

Conclusão

Segundo os estudos aqui analisados, o consumo pontual de glutamina, ou seja, a curto-prazo, não aparenta ser prejudicial para a saúde, mesmo tratando-se de doses elevadas (superiores a 40 gr). Por outro lado, não é aconselhado consumir estas mesmas doses de glutamina de forma regular, na medida em que isso pode prejudicar algumas funções no nosso organismo.


REFERÊNCIAS OU NOTAS:
[*1] – Bassini-Cameron, A. et. al., Glutamine protects against increases in blood ammonia in football players in an exercise intensity-dependent way, Br J Sports Med. 2008 Apr;42(4):260-6
[*2] – Carvalho-Peixoto, J. & Alves, R. & Cameron, L., Glutamine and carbohydrate supplements reduce ammonemia increase during endurance field exercise, Appl Physiol Nutr Metab. 2007 Dec;32(6):1186-90
[*3] – Albrecht, J. & Norenberg, M., Glutamine: a Trojan horse in ammonia neurotoxicity, Hepatology. 2006 Oct;44(4):788-94 (LINK)
[*4] – Walsh, N. et. al., Effect of oral glutamine supplementation on human neutrophil lipopolysaccharide-stimulated degranulation following prolonged exercise, Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2000 Mar;10(1):39-50
[*5] – Ziegler, T. et. al., Safety and metabolic effects of L-glutamine administration in humans, JPEN J Parenter Enteral Nutr. 1990 Jul-Aug;14(4 Suppl):137S-146S
[*6] – Gleeson, M., Dosing and Efficacy of Glutamine Supplementation in Human Exercise and Sport Training, J. Nutr. October 2008 vol. 138 no. 10 2045S-2049S
[*7] – Holecek, M., Side effects of long-term glutamine supplementation, JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2013 Sep;37(5):607-16

Autor: Marcos Sabino

Marcos Sabino criou o Tá Fitness em 2012. Licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho, onde também tirou o mestrado. Trabalhou 4 anos na Prozis, em Portugal, e em 2014 mudou-se para Inglaterra onde trabalha desde então na Myprotein. Possui um canal no Youtube onde dá dicas de nutrição e suplementação e um perfil no Instagram (@marcossabinofitness).

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