Arginina promove a vasodilatação? O que dizem os estudos?

No âmbito da atividade física, atletas profissionais e recreativos suplementam-se com arginina devido a duas razões principais: 1) o seu potencial papel na secreção da hormona de crescimento e 2) o seu papel no aumento da produção do óxido nítrico. Sobre o primeiro efeito podem ler o artigo que eu já escrevi: Arginina aumenta a hormona de crescimento? O que dizem os estudos?

Neste artigo, vou-me debruçar sobre a literatura científica existente que procurou descobrir se a suplementação com arginina é eficaz a aumentar a circulação de óxido nítrico e, como tal, aumentar a vasodilatação.

Como o corpo converte arginina em óxido nítrico?

O óxido nítrico é um composto que ganhou muita popularidade no mundo desportivo devido aos seus conhecidos efeitos vasodilatadores (dilatação dos vasos sanguíneos). Com efeito, é sabido que o óxido nítrico promove um aumento da circulação de oxigénio e de nutrientes durante o exercício físico, o que vai ajudar na produção de energia e na remoção de resíduos metabólicos gerados durante a atividade física, auxiliando assim a recuperação muscular (1).

Existem duas vias principais através das quais o organismo produz óxido nítrico (2). Numa delas, o organismo converte arginina em óxido nítrico através da ação de enzimas conhecidas como óxido nítrico sintases. Na outra, o organismo utiliza nitritos e nitratos como substratos para a produção de óxido nítrico.

suplemento de arginina

Arginina promove a vasodilatação? O que dizem os estudos?

Uma vez que uma das vias de o organismo produzir óxido nítrico é a partir do aminoácido arginina, pensa-se então que a suplementação com arginina pode aumentar a biodisponibilidade de óxido nítrico. Mas será que isto é confirmado pelos estudos científicos?

Sabe-se que a infusão intravenosa com arginina é eficaz a aumentar os níveis sanguíneos de arginina (3) e a arginina é de facto usada para o tratamento de algumas doenças como a angina, a hipertensão e a insuficiência cardíaca. O problema é que os estudos não mostram o mesmo grau de sucesso quando o consumo é feito de forma oral (que é a forma como a grande maioria dos desportistas consumiriam arginina no mundo real).

Na verdade, a grande maioria dos estudos tem repetidamente demonstrado que consumir arginina de forma oral não promove o aumento do óxido nítrico e, como tal, falha em aumentar a performance desportiva ou a recuperação muscular.

Num estudo crossover (os mesmos indivíduos avaliados em períodos diferentes) publicado em 2009 no Medicine & Science in Sports Medicine (4), 18 jovens adultos consumiram um placebo num período e 7 gramas de arginina no outro período antes de completarem uma série de treino de resistência. A rigidez das artérias o fluxo sanguíneo do antebraço foram medidos em cada um dos períodos. Os investigadores não encontraram diferenças significativas entre os dois períodos, concluindo que a arginina não teve impacto na dinâmica cardiovascular.

No mesmo ano de 2009, um outro estudo também falhou em encontrar benefícios da suplementação com arginina a nível da produção de óxido nítrico (5). Este estudo foi realizado com 10 atletas de elite de judo que consumiram ou um placebo ou 6 gramas de arginina durante 3 dias seguido de um teste anaeróbico na bicicleta ergométrica. Para além disso, também não foram encontrados benefícios a nível da redução de lactato e amónia, que são dois marcadores de fadiga muscular.

Avançamos para 2011 onde mais 2 estudos não encontraram efeitos da suplementação com arginina nem no aumento da circulação sanguínea nem no aumento da síntese proteica muscular (6), (7).

Da mesma forma, também estudos mais recentes confirmaram a falta de resultados da suplementação com arginina em indicadores de rendimento desportivo. Num estudo publicado em 2018, o consumo de 6 gramas de arginina antes de um treino de força não produziu melhorias na performance. A conclusão do estudo foi a seguinte: “estes resultados não apoiam o uso de L-arginina como uma ajuda ergogénica para o treino de força, pelo menos num contexto de consumo agudo imediatamente antes do treino de resistência” (8).

Noutro estudo publicado em 2019 no International Journal of Exercise Science, o rendimento desportivo de 11 jovens adultos que consumiram 6 gramas de arginina não foi melhorado em resultado da suplementação com este aminoácido, levando os investigadores a concluir: “os nossos resultados não apoiam o uso de L-arginina como uma ajuda ergogénica para provas de corrida em jovens saudáveis do sexo masculino” (9).

Poderíamos ainda citar outros estudos que igualmente não encontraram efeitos positivos do consumo de arginina no aumento do fluxo sanguíneo nem do rendimento desportivo (10), (11), (12).

Não há mesmo nenhum estudo positivo?

Existem de facto alguns estudos que mostraram que a produção de óxido nítrico aumentou depois da ingestão de 6 gramas de arginina, o que levou ao atraso da fadiga muscular (13), (14).

No entanto, o rácio de estudos que encontraram efeitos positivos versus efeitos negativos é claramente desfavorável à arginina. Para um estudo que encontrou um efeito positivo, existem 3 que não encontraram qualquer benefício. Devido a isto, a arginina encontra-se na lista de suplementos da Sociedade Internacional de Nutrição Desportiva apresentados como tendo pouca ou nenhuma evidência para o seu uso no contexto de melhoria do rendimento desportivo (15).

O pequeno grande problema da arginina – a absorção

A falta de eficácia da suplementação com arginina deve-se, sobretudo, à sua fraca absorção. Estima-se que cerca de 40% da arginina consumida de forma oral seja degradada no intestino delgado e o resto da arginina é, na sua grande maioria, convertida em ureia no processo do ciclo da ureia (16). Apenas uma pequena parte da arginina consumida de forma oral vai ser efetivamente convertida em óxido nítrico.

Se estás à procura de um suplemento que promova a vasodilatação, há alguns anos que se sabe que a citrulina malato é mais eficaz neste propósito do que a arginina (17).

Autor: Marcos Sabino

Marcos Sabino criou o Tá Fitness em 2012. Licenciou-se em Comunicação Social na Universidade do Minho, onde também tirou o mestrado. Trabalhou 4 anos na Prozis, em Portugal, e em 2014 mudou-se para Inglaterra onde trabalha desde então na Myprotein. Possui um canal no Youtube onde dá dicas de nutrição e suplementação e um perfil no Instagram (@marcossabinofitness).

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